Algumas das situações mais engraçadas que vivemos na Holanda aconteceram enquanto estávamos trabalhando.

Claro, era o momento em que o contato com a cultura deles era mais evidente, da nossa parte uma quase completa ignorância sobre os modos e costumes. Da parte deles, uma curiosidade quase infantil do que é o Brasil.

Se você ainda não leu o post anterior, do primeiro choque na Holanda, clique aqui.

Comecei a trabalhar na fábrica quase um mês após chegar a Holanda.

A parte de conseguir emprego foi rápida, a minha mãe já havia trabalhado neste mesmo lugar e já haviam demonstrado interesse em me contratar (contratam bastante estrangeiros nessa fábrica, principalmente da Polônia, que é ali pertinho).

A fábrica se chama Modderman Fabricage, a 25Km de Lemmer (onde morávamos), na cidade de Rotsterhaule.

É uma fábrica familiar centenária que produz kruidnootjes.

Esta região é chamada de Frísia e além do Holandês, fala-se Frísio, um dialeto parecido mas impossível de entender.

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Bandeira da Frisia

Que maravilha, consegui o primeiro emprego. E agora que eu mal sei pronunciar o nome da fábrica, o que eles produzem e o nome cidade? Tô ferrado!

Minha reação foi de felicidade misturada com choque e dúvidas, muitas dúvidas.

Na minha cabeça passavam os pensamentos mais loucos, “nossa, nunca entrei numa empresa com mais de 100 anos de existência… passaram por guerras, será que também foram controlados por nazistas?”

Aliás, essa é uma diferença enorme da Europa para o Brasil, vemos muitas empresas MUITO antigas, mas não só conglomerados enormes ou grandes montadoras de automóveis, nós frequentamos lojas e cafés que tinham quase ou mais de 100 anos.

Isso nos dá uma noção da estabilidade do país, e do continente inteiro na verdade, empresas que foram criadas na revolução industrial, sobreviveram a nada menos que duas guerras mundiais, a guerra fria, a grande depressão de 1930, a crise de 1970…

“Impressionante, não é?” Era só o que conseguia pensar.

No dia da entrevista com o dono da Fábrica, a minha mãe foi para ser minha intérprete (neste dia descobri que ele até sabe, mas não gosta de falar em inglês, gelei ainda mais!).

No caminho passávamos pelos campos coloridos e fazendas típicas do Norte da Holanda, que país maravilhoso!

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Animais por todo lado completavam o cenário, patos, gansos, cisnes, ovelhas, vacas cuidavam das suas vidas tranquilamente, parece que a vida na Holanda passa em câmera lenta, e que nada de ruim jamais aconteceu naquele país.

Outra coisa muito curiosa é que em TODAS as ruas, com exceção apenas das estradas (porque não é permitido), existe uma ciclofaixa pintada no chão de cada lado do asfalto. Em ruas menores, só se passa um carro de cada vez se tiver ciclista em uma das ciclofaixas.

Isso mostra a mentalidade do holandês, a prioridade é SEMPRE a segurança do ciclista.

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Chegamos a fábrica, nossa que rápido!

Levamos pouco mais de 15 minutos para chegar, uma coisa que eu não estava nem um pouco habituado, afinal em São Paulo, morávamos a 4 km do trabalho e demorava no mínimo 20 minutos para chegar (sem contar o tempo para estacionar…).

Dessa vez foram 25km em maravilhosos 15 minutos. Também, com semáforos inteligentes, ruas planejadas e asfalto impecável, não era de se esperar menos!

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Fiz a “entrevista” e tudo certo! (Não entendi uma palavra que eles falaram, mas estava empregado!).

O que eles precisavam de mim era força física e força de vontade, então eu atendia os pré-requisitos e estava apto a trabalhar.

No primeiro dia de trabalho, cheguei e fui vestir o overall (um macacão que fazia eu parecer um astronauta) e coloquei a redinha no cabelo (OK, cadê o nariz de palhaço agora? Hahaha).

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Quando entrei, meu chefe me cumprimentou e já foi logo explicando (com um inglês muito básico) o que eu tinha que fazer…

You put it here and then here, do this, do that… that’s it! Easy!

Já imaginava que trabalhar na fábrica não iria exigir muito raciocínio, mas aquilo era tão fácil! era só colocar a massa do cookie na máquina. Piece of cake! (Literalmente!)

Coloquei o carrinho rápido no “elevador” apertei o botão para subir e…

Acidentalmente 200kg de cookies se espalharam pelo chão! (Hahaha juro, na primeira já causei!)

Passei os próximos vinte minutos limpando, envergonhado.

Eu estava há meia hora trabalhando e já havia causado um problemão.

Logo depois tive meia hora de “almoço”. Eles chamam de almoçar a pausa que eles fazem no meio do dia para comer um lanche, são fatias de pão e fatias de queijo e… e mais nada, é isso aí mesmo! (E eu sonhando com literalmente o um prato de peão).

Para mim isso não é almoço, mesmo!

Confira aqui 10 coisas que aprendemos quando morei na Holanda.

Comi o lanche, tomei minha água (uns 4 litros, naquele calor infernal do verão misturado com o calor dos fornos) e pareceu que aceleraram o relógio do refeitório!

Logo já era hora de voltar.

O resto do dia correu bem, quer dizer, eu fui pegando o jeito, corria de um lado para o outro, tentando manter alimentadas os dois fornos (aproximadamente 150m de comprimento cada um) que eram insaciáveis.

O suor escorria por todos os poros do meu corpo e eu tinha certeza que a qualquer momento meus braços iriam desencaixar do meu ombro (pelo menos assim eu teria mais uma pausa!).

Achei que ia ser mais fácil, confesso!

Nos últimos 15 minutos eu já não corria, me arrastava, acho que parecia um zumbi do walking dead, com cortes nas mãos, exausto e sem forças, mas cheguei ao fim!

Saí as 5h da tarde e o sol estava ainda forte (no auge do verão na Holanda o sol se põe as 22h!), minha mãe me buscou no trabalho junto com meu padrasto (holandês) e fomos nadar num lago lindo perto da fábrica.

Eles fazem bastante disso lá!

Quando entrei na água (gelada, claro) os músculos relaxaram e eu fiquei ali, imóvel.

Nem me arrisquei a passar da água da cintura (tinha medo das minhas pernas não funcionarem mais!!! Hahaha) mas foi tão bom, uma sensação de paz incrível!

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Lago em Rotsterhaule

Voltamos para casa, jantamos, eu devo ter comido uma tonelada mas não lembro desta parte porque meu cérebro já havia se recusado a viver nesta hora, tomei banho e apaguei…

Pareceu 5 minutos depois… trim trim trim… hora de trabalhar novamente!!!

E assim foi por mais 4 meses de trabalho árduo na fábrica, com menos 8 kg na balança.

Curtiu nossa história? Continue nos acompanhando para saber mais!

Saiba como tudo começou aqui  ou continue com o próximo post

23 comentários em “A Fábrica – Holanda #3

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