Claro, é de se imaginar. De todos os países que passamos, a Holanda foi uma das maiores escolas para nós.

Aquela boa samaritana que mostra que é possível cidadãos viverem em harmonia, se respeitando e colocando a honestidade em primeiro lugar.

Claro que, para nós, como brasileiros, isso era lenda.

O choque cultural começou logo na primeira semana de trabalho e até cair a ficha e entender o que tinha acontecido, levamos um grande susto.

Veja aqui 10 coisas que aprendi quando morei na Holanda.

Bem, o Erik chegou 1 mês antes para ajeitar as coisas e já começar a trabalhar. Arrumou um emprego em uma fábrica de bolos e cookies típicos holandeses.

Logo, ele e tudo que encostava nele até chegar em casa ficava com o aroma do kruidnoten (canela, uma pitada de pimenta branca e especiarias), que mais tarde apelidei carinhosamente de “cheiro de bolinho”, me fazendo sentir mordendo o bolo toda vez que o cumprimentava com um selinho depois do expediente.

Até que era bom!

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Logo na semana que cheguei, comecei os trabalhos como “Post Bezorger” (entregadora de cartas).

Era uma excelente oportunidade de conhecer a cidade, fazer exercício físico e ganhar uns bons trocados em euro, certo?

Certo!

Mas o lado “ruim” também estava lá: carregar dezenas de kilos de cartas por vários kilômetros não é algo muito simples para alguém que trabalhou a vida inteira na frente do computador e só andava de bike no parque quatro vezes por ano (ou na vida, rs).

post

No primeiro dia tive a ajuda da família. Mas eu não era capaz de ler (muito menos pronunciar) a maioria dos nomes das ruas.

– Entrega as cartas na rua “Weegschaal” e nos encontramos na “Brekkenweg”, ok? – disse a sogra

– Ok, só deixa eu anotar aqui e já vou…

Até que começou light, daí os nomes só iriam piorar. Koervodermeerstraat, Heegermeerstraat, Tjeukemeerstraat e por aí vai… (me divertia só de tentar falar estes nomes na minha cabeça, você também?)

rua

Mas eu vou te contar uma coisa: que lugar lindo!

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Canal na Rua Heegermeestraat. Inspirador, não acha?

Logo no segundo dia eu já fui sozinha, entregar as benditas.

Coloquei tudo nas costas em uma mochila de 40 litros, (minhas costas pareciam que iam quebrar!!!) e comecei a caminhar.

Eu sei o que você esta pensando, e a bicicleta? Sinceramente, a bicicleta ainda não era uma opção, tinha a certeza que com todo aquele peso eu ia cair na certa e não queria isso logo no começo.

E lá fui eu, na cara e na coragem.

backpack
Assim, bem mochileira mesmo.

Mas que frio! Era verão mas eu lembro que estava frio!

Além disso, tinham centenas de teias de aranhas gigantescas que, sem querer, eu enfiava a cabeça na hora de colocar as cartas nas caixas de correio.

Mas que cidade linda! Não cansava de contemplar cada canal que via pela frente. São cheias de patinhos coloridos. Apaixonante! (Mais uma teia no cabelo, urgh!)

duck
Eles tem cores tão lindas.

Estava tudo indo bem, quer dizer, eu estava completamente perdida! hahaha, tentando entender as lógicas de numeração e decorar os nomes da rua.

Mas estava tudo sob controle (só que não).

Minhas costas doíam e muito.

Logo não senti mais frio e comecei a pegar o jeito.

Mas minhas costas doíam, mesmo! Quem já levou uma mochila bem pesada nas costas por kilômetros sabe do que estou falando.

Enquanto ia pelas ruas, reparava em tudo ao redor e achava muito interessante como eles deixam suas coisas: ali mesmo, no jardim da casa.

bike

Sim, eles acomodam de tudo: bicicletas, casacos, bonés, brinquedos, sacolas de supermercado, garrafas para reciclar e etc, sem preocupações. Afinal, eles estão em um dos países mais seguros do mundo.

Sempre passavam gatos e cachorros pelo caminho. E lógico, TODOS ganhavam carinho e me ajudavam a recarregar as energias. São tão carinhosos e não tem medo das pessoas. (Nem sabem o que são maus-tratos)

Porém, a cada passo que dava, sentia o peso de um elefante nas minhas costas, que ia  me cortando os ombros e piorando a cada rua que passava.

Eu estava exausta. Apesar do frio, o suor escorria no rosto. Sentia fome. Dor nas pernas. Bateria do celular acabando (meu GPS!!!).

Sabe quando você só consegue mentalizar aquele banho quente e a cama macia te esperando?

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Ahhh, que delícia!

Olhei na mochila e… surpresa!!!

Estava quase acabando, faltavam só algumas dezenas de cartas. Mas como não aguentava mais aquela mochila nas costas eu tive uma brilhante ideia.

Resolvi fazer como os locais (malandrona que soy). Deixei a mochila encostada perto de um jardim e fui entregar o restante que faltava.

O Erik saiu do trabalho mais cedo e foi me encontrar. Pegou um bolinho de cartas da minha mão e começou a me ajudar.

Ótimo! Ufa!

Acabei de entregar as cartas em mãos e fomos ao encontro da mochila, que guardava o último bolinho de cartas e minha blusa hard shell (de vento e chuva), super útil no clima holandês.

Mas fui me aproximando e não conseguia vê-la.

Me aproximei mais e… NÃO estava lá! A mochila tinha sumido! M%#!@, sabia que a Holanda não era tão segura assim!

Andamos pelo bairro que é tão calmo, conversamos com pessoas, tocamos campainhas de casas, nada!

Ninguém sabia de nada, ninguém tinha visto nada.

Logo, um senhor com grandes bigodes e dentes tortos (parecia o morsa do Pica-Pau kkk) nos indicou ir à polícia, pois poderia ter sido entregue lá.

Seguimos o conselho e fomos até a delegacia (que aliás, só trabalha em horário comercial) contar o ocorrido.

Veja aqui + 15 coisas que aprendi quando morei na Holanda.

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Claro, eles não tinham nenhuma informação, anotaram nossos dados e nos aconselhou ir até a prefeitura.

Logo que chegamos na prefeitura soubemos que também não tinham informação.

Pensamos: “Alguém pegou a mochila e nesse momento está abrindo todas as cartas vendo se tem algo útil para roubar”.

Preenchemos uma ficha de achados e perdidos na internet que a senhora nos indicou, cabisbaixos e desacreditados.

Então fomos para casa, não tinha mais o que fazer. Ficamos tristes, decepcionados e preocupados. As cartas podem ter dados importantes e estavam nas mãos de qualquer um.

Enfim, chegamos em casa, jantamos e pensávamos, calados, qual seria o próximo passo.

mulher

Claro, a minha sogra ficou super preocupada, porque poderíamos até ser processados (haviam documentos muito importantes na mochila, bancos, prefeitura, seguros, exames…) e escreveu um post, pedindo ajuda, no grupo do Facebook da cidade explicando o ocorrido.

Logo no dia seguinte, um sábado, veio uma resposta “eu vi uma pessoa entregando uma mochila parecida nos correios”.

Oba! Que maravilha! Fomos correndo aos correios!

– “Realmente entregaram aqui uma mochila parecida. Uma pessoa achou que estava perdida, abriu, viu que eram cartas e entregou diretamente aos correios. Mas ela não esta mais aqui, foi encaminhada para a central dos correios.” – Disse a atendente.

Não acreditamos! Em questão de minutos, um morador viu a mochila na rua e logo encaminhou para que o dono possa achar. Quando eu iria imaginar isso?

É um espírito de ajuda ao próximo que realmente não estamos acostumados.

Afinal achamos a mochila! A demissão não importava mais, nem nossas coisas, só estávamos aliviados por  ter achado as cartas!

Logo ligamos na central e nos informaram que teríamos que esperar até segunda para entrar no sistema, mas para não nos preocupar, porque caso a mochila fosse nossa, seriamos avisados.

Segunda-feira, lá estavam os correios devolvendo a mochila EM CASA, intacta!

Consegue imaginar? Foi como um tapa na nossa cara! Honestidade, a gente vê por aqui…

mocas

Esse foi só começo da aventura nas terras holandesas.

Nos acompanha por mais capítulos? Clique aqui e conheça a próxima historia!

Ps: No fim, entregamos o restante das cartas e como deu tudo certo, não perdi o emprego!

Ainda não sabe como tudo começou?  Então clique aqui e saiba agora.

 

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47 comentários em “O Choque – Holanda #2

  1. Quando morei na Alemanha passei por uma situação parecida. Morava em Freiburg e fui passar o final de semana em Stuttgart. Lá acabei perdendo a minha carteira com vários documentos.. Fiz boletim de ocorrência na policia, fui no achados e perdidos da cidade antes de voltar para casa e nada.. 2 semanas depois a policia batia na porta da minha casa em Freiburg dizendo que a policia de Stuttgart havia enviado a minha carteira para eles.. Coisas que só vendo para acreditar

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  2. Acho que morar fora do Brasil sempre muda a gente de alguma forma né? temos um choque de realidade e tomamos consciência de tanta coisa que pode sim ser melhor por aqui. A Holanda é daqueles lugares-exemplo. Povo organizado, honesto. Andar nas ruas sabendo que pode confiar. São sentimentos que fazem muita falta aqui no Brasil. É triste pensar que, se fosse aqui, o destino da mochila podia não ser tão feliz :/

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